Na bagagem, um pouco da Suíça

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Cada imigrante suíço que desembarcou no Brasil trouxe na bagagem um pouco de seu país. A motivação da viagem varia conforme a época e a história individual: fuga da pobreza, motivos religiosos e ideológicos, busca de liberdade, gosto pela aventura, projetos pessoais ou profissionais, curiosidade científica, globalização da economia.

O painel delineado por esta exposição revela a diversidade de experiências que se mesclaram à sociedade brasileira. A história que os suíços escrevem no Brasil tem momentos de saga heroica, de superação de obstáculos e também muitos finais felizes, pois o encontro entre as culturas revelou-se generoso em criatividade e oportunidades.

Embarque de suíços para o Brasil no porto de Gênova, Itália, década de 1920

Acervo Memorial do Imigrante

Os desbravadores

Os suíços estiveram presentes desde os primeiros momentos da conquista do território brasileiro. Já em 1557 chegaram à baía de Guanabara 14 missionários calvinistas, vindos do cantão de Genebra em busca de uma terra livre de perseguições religiosas.

Durante anos, a vinda dos suíços seguiu marcada pela fé, pela conquista do território e pela transitoriedade. Até o século 19, os que se aventuravam pelo Brasil eram padres jesuítas, soldados mercenários e desbravadores, que não planejavam ficar por muito tempo. Os registros mostram chegadas esparsas, de norte a sul do país.

Passaportes suíços nos ano de 1954 (esquerda) e 2004 (direita)

Nova Friburgo, a primeira colônia

A crise econômica na Europa do século 19 inaugura uma nova etapa na história da imigração dos suíços. Pressionados pela competição dos países industrializados e pelas colheitas minguadas, os suíços deixaram a terra natal em massa. Para fugir da fome, cerca de 2 mil pessoas alistaram-se para emigrar entre 1818 e 1819.

Longas negociações entre o governo português e o cantão de Friburgo definiram os detalhes da chegada desse primeiro grande grupo. Ficou decidido que a colônia se chamaria Nova Friburgo e os imigrantes perderiam a cidadania suíça, tornando-se “súditos do rei de Portugal”.

Os 2.006 suíços que compraram esse sonho vinham de vários cantões: Friburgo, Berna, Valais, Vaud, Neuchâtel, Genebra, Aargau, Solothurn, Lucerna e Schwyz.

Não demorou para o sonho transformar-se em pesadelo. As condições da viagem foram tão precárias que apenas 1.617 chegaram (e 14 bebês nasceram durante a viagem). A região era assolada pela malária. Foi nesse cenário que os suíços pioneiros fundaram a primeira colônia de europeus não portugueses no Brasil.

Diante das más condições, em 1823 os colonos de Nova Friburgo se dividiram. Ficaram na colônia os que tinham melhor situação financeira, e os que não tinham nada a perder partiram para terras mais quentes no Vale do Paraíba e para outras cidades.

Em 1890, um decreto transformou a colônia em cidade.

A miragem da terra prometida

A propaganda dirigida aos suíços que desejavam emigrar, e que idealizava o Brasil como terra prometida, tinha a seu favor uma explosão demográfica na Suíça aliada a um momento de profunda crise econômica. Entre 1845 e 1846, a “doença da batata” (Kartoffelkrankheit) alastrou-se pelas plantações e comprometeu metade das colheitas daquele que era o principal alimento da época.

Essa coincidência de fatores incentivou a vinda de novos grupos a partir de 1850. Os suíços foram nessa época para as fazendas de café do Oeste Paulista, Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia.

Terreiro de Café da fazenda Ibicaba destacando-se a Casa de Máquinas, 1904

Acervo Família Levy- Carlota Schmidt Memorial Center

A Revolta de Ibicaba

O regime de semiescravidão era uma ameaça concreta para os cerca de 2 mil suíços que vieram trabalhar nas plantações de café, entre 1852 e 1857. Em 1856, a Revolta de Ibicaba, um protesto de colonos suíços contra as condições de vida na fazenda Ibicaba, em Limeira (SP), criou um incidente diplomático entre Brasil e Suíça. Pouco depois, era extinta a migração em massa para o Brasil.

Tulha de café da fazenda Ibicaba. Foto do início do século XX

Acervo Dra. Lotte Köhler - Carlota Schmidt Memorial Center

Dona Francisca, atual Joinville

Primeira vista de Joinville, antes da fundação. Desenho de 1850

Xilogravura publicada na “Illustrierte Zeitung” de 1851

A história da maior cidade de Santa Catarina começa com o projeto de colonização liderado pelo senador alemão Christian Matthias Schroeder, dono da Sociedade Colonizadora Hamburguesa. Em 1851, chegaram ali 75 suíços e 43 alemães.

Austríacos, belgas, escandinavos, franceses, holandeses e noruegueses integravam também o grupo de fundadores. Eles ocuparam uma área que havia pertencido a Francisca Carolina, filha de D. Pedro I, daí o nome da colônia.

Clima adverso, infraestrutura precária. Dez anos depois de sua fundação, centenas de imigrantes partiram para São Francisco do Sul, São Paulo, Rio Grande do Sul e, principalmente, para o planalto de Curitiba.

“Coin de Forêt avec Fougères Arborescentes”, aquarela com guache e verniz, por William Michaud, século 19

Acervo Musée Historique Vevey, Suíça

Superagui

A Colônia de Superagui foi fundada, em 1852, pelo cônsul suíço em São Paulo, Charles Perret-Gentil, que comprou 35 hectares na região de Guaraqueçaba, no Paraná. Treze famílias europeias, vindas da Suíça, França, Itália e Dinamarca, foram as primeiras a chegar. O pintor William Michaud, que ali viveu, retratou em suas aquarelas as paisagens da região. A colônia prosperou com a plantação de café e com a pesca. Chegou a ter 150 casas em 1879. Com a dispersão dos descendentes dos primeiros colonos, o censo de 1920 registrou apenas 125 moradores.

Outras colônias

Os suíços também estiveram presentes, embora em menor número, em outras colônias espalhadas por todo o Brasil.

No Amapá, fundaram a Colônia de Vila Vistoza de Madre de Deus (1767), entre os municípios de Macapá e Mazagão. Na Bahia, surgiu a Colônia Leopoldina (1818), no município de Mucuri.

No Espírito Santo, a Colônia de Santa Isabel (1846) deu origem ao município de Domingos Martins. Em 1856, os imigrantes fundaram outras duas colônias nesse mesmo estado: Santa Leopoldina, hoje município de mesmo nome, e Rio Novo, município de Rio Novo do Sul.

Em Santa Catarina, os suíços fundaram a Nova Helvetia (1897), no município de Ibirama, a Colônia de Presidente Getúlio (1904) e a de Bom Retiro (1922), em municípios com o mesmo nome.

Em São Paulo, participaram da criação da Colônia Holambra II (1960), no município de Holambra.

No Rio Grande do Sul, fundaram as colônias Santa Luzia e Santa Clara (1824), em Montenegro, atualmente município de Carlos Barbosa, e a Colônia Roca Sales (1881), no município homônimo.

Rio São Francisco

Imagem de Margi Moss. Acervo Brasil das Águas

Brasil por opção

Nos séculos 20 e 21, os suíços que se estabelecem no Brasil têm um perfil diferente dos imigrantes suíços que os precederam. Elegem o Brasil para viver por encontrar no país oportunidades e amigos. São artistas, cientistas, empresários.

Na bagagem, trazem espírito empreendedor, respeito pelo ambiente, exigência de qualidade, conhecimento, técnica, criatividade, investimentos. Terminada a Segunda Guerra Mundial, grandes empresas e bancos suíços participaram nos anos 1950 da internacionalização da produção industrial no Brasil. Outro momento de grandes investimentos verificou-se no final dos anos 90, com a liberalização da economia e a privatização de empresas estatais brasileiras.

“Ensaio Mulher Yanomami” - fusão de imagens como nos “sonhos” dos xamãs, por Claudia Andujar, 1974/2003

Acervo Claudia Andujar

Suíça e Brasil selaram, em 2007, um acordo de cooperação bilateral nas áreas política, econômica, científica e tecnológica, estabelecendo uma parceria estratégica. O Brasil representa hoje 35% dos negócios suíços na América Latina, segundo dados da Câmara de Comércio Suíço-Brasileira.